A classe estava animada. Marina, a professora, tinha acabado de propor aos alunos que fizessem uma lista com dez maravilhas do mundo. Isso depois de fazer uma breve e instigante exposição sobre lugares históricos famosos de diversos países.
A professora falou também sobre como o mundo era grande e cheio de possibilidades. Lugares incríveis para conhecer e explorar. Os meninos amavam Marina. E não só porque ela era bonita e gentil, mas porque seus olhos castanhos brilhavam ao explicar os conteúdos e porque sentiam o quanto ela gostava de estar ali, com eles.
Era uma escola pequena e colorida, preparada para receber crianças entre os cinco e os dez anos. Marina sentia o seu coração encher-se de alegria sempre que entrava pelos portões amarelos e, caminhando pelo pátio arborizado e florido, aproximava-se de sua sala de aula.
Naquele dia, o sol brilhava quente e sua luz criava auras sobre as cabeças dos pequenos que, compenetrados, escreviam suas listas de maravilhas do mundo em seus cadernos. Eles deveriam ler para os colegas na frente da classe e ninguém queria ficar pra trás. Tinham que ser as maravilhas mais legais.
Todos já tinham terminado, menos Alice. Enquanto os colegas já conversavam uns com os outros e esperavam a ordem da professora para irem ler suas listas, a menina ainda estava com a cabeça baixa escrevendo. Marina observou que ela anotava algo no caderno, depois parava um pouco para pensar e, então, escrevia mais alguma coisa.
Alice era alta e magra. Sua estatura era elevada para a idade e, por isso, sentava mais ao fundo da sala. Era também muito quieta e pouco conversava com os colegas. Na hora do recreio, sentava-se em um dos bancos e comia seu lanche com olhos observadores. Ao seu lado, sempre estavam duas outras meninas, mais velhas que ela, que estudavam na última série que a escola oferecia. Era com elas que Alice realmente interagia.
Marina começou a chamar as crianças para lerem suas listas. Monumentos e lugares bastante conhecidos, como as Muralhas da China, o Cristo Redentor e a Estátua da Liberdade começaram a aparecer através das boquinhas sorridentes e orgulhosas dos meninos. Machu Picchu, Coliseu, Taj Mahal, Cataratas do Iguaçu, Grand Canyon. Sim. Pesquisaram no livro de Geografia. A capa estava cheia dessas imagens, formando um belo mosaico. Mas também buscaram em seu próprio repertório. Juan, que era fanático pelo Flamengo, citou o Maracanã. Lucinha, que tinha orgulho de ter nascido no Rio de Janeiro, falou de Copacabana, a princesinha do mar. E José Augusto, neto de um fazendeiro vindo do Mato Grosso, anunciou com entusiasmo e gritando que a maior maravilha do mundo era o Pantanal. Marina sentia-se orgulhosa de seus alunos, tão sensíveis e atentos às aulas de História e Geografia e tão cientes dos valores familiares e pessoais.

Embora Alice devesse ser uma das primeiras a falar, pois Marina costumava chamar os alunos para as apresentações em classe pela lista da chamada, ela ficou por último. Pediu para que fosse assim uma vez que não conseguia se decidir pela ordem de maravilhas em sua lista. E, então, já em pé diante da turma, depois que todos tinham listado tantos lugares e construções importantes, maravilhas geográficas e culturais de grande relevância para a humanidade, Alice leu a sua lista. Ver o sorriso no rosto da minha mãe. E o por do sol. Tomar chocolate quente no inverno e sorvete de creme no verão. Ouvir os passarinhos cantando de manhã e música, qualquer música. Dançar. Correr. Rir. Caminhar de mãos dadas com o meu pai. As mãos deles são fortes e grossas, e têm calos, e as minhas ficam escondidas ali dentro. Eu acho engraçado e também me sinto segura. Abraçar minha irmãzinha e sentir o seu cheirinho de bebê. Sonhar, quando o sonho é bom. Sentir o perfume das flores do jardim da escola. Vocês já repararam no perfume de jasmim que tem no pátio? E o cheiro de mato molhado quando chove. Ou o da macarronada da minha avó. Que também é uma delícia. Outra maravilha! Eu tentei colocar em uma ordem, como vocês também fizeram, mas, na verdade, eu não sei qual é mais importante. Acho que todos são. Pensando bem, acho que posso reduzir essa lista para os cinco sentidos do corpo. Ou ainda para o corpo humano. Ele é a maior de todas as maravilhas. É com ele que podemos admirar as belezas naturais e os monumentos históricos que vocês citaram.
Os alunos estavam surpresos, a princípio, depois começaram a reagir. A maioria concordava com a cabeça. Uns poucos olhavam com desdém ou balaçavam a cabeça em negativa. Marina tinha os olhos marejados e pediu à turma que aplaudissem a menina, como haviam feito com os outros colegas. A menina voltou para o seu lugar ao fundo da classe. Os outros ainda olhavam para ela. Alguns sentiam uma pontinha de inveja. Afinal, no fim, ela apresentou a lista mais legal de todas. Luana e Ana Clara comentaram uma com a outra que Alice era mesmo uma metida e que a professora queria outro tipo de maravilhas do mundo. Alice não tinha era entendido nada.
Já Marina estava muito orgulhosa de todos. Foi o que disse à turma ao fim da aula. Todos tinham expressado muito bem suas opiniões e apresentado listas excelentes. Realmente o mundo era cheio de maravilhas. E a sua turma de alunos, tão queridos para ela, era também uma maravilha. Olhou para Alice ao fundo da sala. Os olhos da professora e da aluna se encontraram em uma breve concordância. E o sinal tocou anunciando o fim da aula.