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São Bernardo, de Graciliano Ramos: resenha

  • Samira Mór 
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São Bernardo é uma história sobre o peso do que é não dito. Assim como em Vidas secas, outra obra do autor, a questão da linguagem, do uso (ou não) das palavras, torna-se um dos elementos mais importantes do enredo.

Obra da 2ª geração do Modernismo, é um romance marcado pelo realismo psicológico e apresenta os traços mais marcantes da literatura do autor: a secura de uma linguagem direta e áspera e a crítica social.

Neste artigo, veremos qual é o enredo, quem são as personagens de destaque e quais são as implicações desse romance para a literatura brasileira do século XX.

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Enredo de São Bernardo

O romance é narrado em 1ª pessoa, pelo protagonista Paulo Honório. Um fazendeiro que decide contar sua própria história em um livro e, dessa forma, tentar entender o fracasso da vida que construiu para si.

Livro São Bernardo, de Graciliano Ramos

A narrativa acompanha a ascensão de Paulo Honório, da pobreza até se tornar um grande proprietário de terras. Mais importante que os fatos narrados é como podemos ir percebendo a consciência do narrador e sua concepção e visão da realidade.

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Paulo Honório é um homem ambicioso e que entende a posse de terras como poder e valor. Conforme vai conquistando terras e poder, também percebe a importância de ter uma esposa.

Casa-se, então, com Madalena, uma professora, mulher sensível e inteligente, de temperamento e caráter oposto ao do marido. O convívio dos dois não é fácil devido à incapacidade de comunicação e demonstração de afeto do narrador.

O casamento de Paulo Honório e Madalena representa uma virada dramática na obra, deslocando o romance da ambição econômica para o colapso emocional.

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Apesar de conseguir conquistar o poder e o reconhecimento social que tanto aprecia, o fazendeiro carrega consigo uma grande culpa, muito ressentimento e solidão.

Personagens de destaque de São Bernardo

Paulo Honório

Paulo Honório é um homem forjado na dureza e na lógica da sobrevivência. De origem pobre, aprende a dominar para não ser dominado, transformando a terra, as pessoas e as relações em objetos de posse.

Fala pouco, pensa de forma prática e mede o mundo pela eficiência. Não se percebe como cruel, mas como necessário — e é justamente essa frieza, narrada sem culpa, que revela a violência de sua trajetória.

Por trás do homem poderoso, há uma profunda incapacidade de lidar com o afeto. Paulo Honório tenta amar como administra sua fazenda: com controle e desconfiança.

Ao escrever sua história, busca justificar o passado, mas expõe o próprio fracasso. Vence materialmente, mas termina só, derrotado por aquilo que nunca soube compreender: o amor.

Madalena

Madalena surge como a presença dissonante em São Bernardo: professora, leitora e sensível, ela carrega valores que não se ajustam à lógica da posse e do lucro.

Sua visão de mundo é guiada por empatia, justiça e reflexão, o que a torna, aos olhos de Paulo Honório, uma figura incompreensível e ameaçadora. Madalena não tenta impor suas ideias; elas simplesmente existem — e, por isso mesmo, desestabilizam um ambiente fundado na força e na submissão.

É justamente essa autonomia que a condena dentro da narrativa. Incapaz de aceitá-la como sujeito, Paulo Honório transforma o amor em vigilância e o convívio em desconfiança. Madalena passa a viver cercada por silêncio e solidão, até que sua sensibilidade se torna insustentável naquele espaço hostil.

Mais do que uma personagem trágica, ela funciona como a consciência ética do romance: sua existência expõe, por contraste, a brutalidade do mundo que a cerca e a falência afetiva de seu marido.

Padilha

Padilha é o antigo proprietário da fazenda São Bernardo, figura decadente que simboliza a ruína de uma elite incapaz de se adaptar às novas lógicas de poder.

Fragilizado, endividado e intelectualmente pretensioso, ele representa tudo o que Paulo Honório despreza. Sua queda serve de contraponto à ascensão do protagonista e evidencia a brutalidade com que o novo dono ocupa seu lugar.

Seu Ribeiro

Seu Ribeiro encarna a lealdade submissa típica das relações hierárquicas da fazenda. Funcionário antigo, ele aceita a autoridade de Paulo Honório sem questionamento, mesmo quando isso implica humilhação ou injustiça.

Sua presença reforça a naturalização da obediência e a estrutura rígida de poder que sustenta o domínio do protagonista.

Marciano

Marciano é um trabalhador rude, explorado e silenciado, cuja trajetória revela a face mais cruel do sistema imposto por Paulo Honório. Sua punição violenta expõe a desumanização dos empregados e o autoritarismo extremo do patrão.

Marciano não é desenvolvido psicologicamente, mas cumpre um papel simbólico central na denúncia da opressão.

Dona Glória

Dona Glória é a tia de Madalena e uma presença discreta, porém significativa, na narrativa. Religiosa e tradicional, tenta mediar conflitos e oferecer algum amparo moral, mas acaba sendo engolida pelo clima de tensão e silêncio da fazenda.

Sua figura reforça o isolamento de Madalena e a ausência de espaços reais de acolhimento naquele ambiente dominado pela dureza de Paulo Honório.

Por que o título é São Bernardo?

O título do romance remete, em primeiro plano, ao nome da fazenda que Paulo Honório adquire e transforma em símbolo máximo de sua ascensão social.

São Bernardo não é apenas um espaço físico, mas a materialização de um projeto de poder: a terra conquistada, administrada com rigor e explorada até o limite. Para o protagonista, a fazenda representa estabilidade, domínio e sucesso — tudo aquilo que ele acredita ser sinônimo de vitória.

Livro São Bernardo, de Graciliano Ramos.

Em um plano mais profundo, porém, São Bernardo passa a designar um território moral e emocional. É o lugar onde o afeto não prospera, onde as relações são regidas pela posse e pelo controle, e onde a brutalidade se naturaliza.

Ao nomear o romance com o nome da fazenda, Graciliano Ramos sugere que aquele espaço absorve e define seus habitantes, especialmente Paulo Honório. O título, assim, funciona como metáfora de um mundo fechado, árido e inflexível — reflexo direto da mente de seu dono.

Temas centrais de São Bernardo

Em São Bernardo, Graciliano Ramos constrói uma crítica contundente às relações de poder que estruturam a sociedade rural brasileira.

A posse da terra surge como eixo central do romance: tudo gira em torno do domínio, da propriedade e do controle, valores que moldam a visão de mundo de Paulo Honório. O livro expõe o coronelismo, a exploração do trabalho e a lógica econômica que transforma pessoas em instrumentos, revelando um sistema social marcado pela desigualdade e pela violência cotidiana.

Outro tema fundamental é o fracasso afetivo. Incapaz de lidar com o amor fora da lógica da posse, Paulo Honório destrói sua relação com Madalena e termina isolado. A obra também aborda a incomunicabilidade, o ciúme e a paranoia, mostrando como a ausência de diálogo corrói as relações humanas.

Por fim, a escrita aparece como tentativa frustrada de compreensão: ao narrar sua história, o protagonista busca sentido para a própria vida, mas encontra apenas o vazio deixado por uma existência construída sem empatia.

A linguagem de São Bernardo

A linguagem de São Bernardo é marcada pela economia extrema e pela precisão. Graciliano Ramos constrói o romance com frases curtas, secas e diretas, eliminando qualquer excesso ornamental.

Essa escrita contida não é apenas uma escolha estética, mas uma extensão da personalidade do narrador: Paulo Honório fala como pensa e age — de forma objetiva, dura e funcional. O estilo reforça a sensação de aridez que atravessa toda a obra, tanto no plano material quanto no emocional.

Além disso, a linguagem cria um forte vínculo entre forma e conteúdo. O tom áspero, por vezes abrupto, traduz a incapacidade do narrador de elaborar sentimentos complexos. Os silêncios, as interrupções e a falta de introspecção lírica dizem tanto quanto as palavras.

Assim, Graciliano transforma a linguagem em instrumento psicológico: é pela secura da escrita que o leitor percebe a violência, o vazio afetivo e a solidão que definem o universo de São Bernardo.

A estrutura narrativa de São Bernardo

A estrutura narrativa de São Bernardo é construída a partir da memória fragmentada do narrador-protagonista. Paulo Honório escreve para contar sua própria história, mas o faz de maneira não linear, alternando episódios do passado conforme lhe convêm ou conforme surgem à sua lembrança.

O romance avança em blocos narrativos, sem uma ordem cronológica rígida, o que reforça a ideia de uma escrita marcada pela tentativa — e pela dificuldade — de organizar a própria vida.

Essa estrutura confere ao livro um caráter introspectivo e psicológico. Ao longo do relato, o narrador comenta o próprio ato de escrever, interrompe-se, corrige-se e demonstra insegurança quanto à forma do texto.

Essa metalinguagem discreta aproxima o leitor da mente de Paulo Honório e evidencia suas limitações emocionais e intelectuais. Mais do que contar fatos, a estrutura do romance revela um homem tentando se compreender — e falhando — enquanto escreve.

A importância literária do romance

São Bernardo ocupa um lugar central na literatura brasileira por consolidar Graciliano Ramos como um dos grandes romancistas do século XX e por representar com força exemplar o Romance de 30.

O escritor Graciliano Ramos lendo um de seus livros de sucesso, Vidas secas.

A obra alia crítica social e profundidade psicológica, rompendo com idealizações do regionalismo ao apresentar um sertão duro, marcado por relações de poder, exploração e silêncio.

Ao colocar um proprietário rural como narrador, o romance também inova ao expor o mundo do domínio a partir de dentro, revelando suas contradições e sua falência moral.

Além disso, São Bernardo é fundamental pela maneira como articula linguagem, forma e psicologia. A escrita seca e econômica tornou-se uma marca de Graciliano e influenciou gerações de escritores brasileiros.

O romance permanece atual por discutir temas universais — poder, ambição, fracasso afetivo, solidão — sem recorrer a sentimentalismos. Por isso, segue sendo leitura recorrente em escolas, universidades e debates críticos, não apenas como documento histórico, mas como obra literária viva, capaz de inquietar leitores de diferentes épocas.

Conclusão

São Bernardo é um romance que permanece atual justamente por sua dureza. Ao narrar a trajetória de Paulo Honório, Graciliano Ramos constrói um retrato implacável de um homem moldado pela lógica da posse, do poder e da eficiência, incapaz de compreender o afeto e o outro.

A fazenda, o casamento fracassado, a linguagem seca e a estrutura fragmentada convergem para o mesmo ponto: a exposição de uma existência materialmente bem-sucedida, mas emocionalmente arruinada. Nada no livro é gratuito — forma, linguagem e narrador operam juntos para revelar a falência humana por trás da ascensão social.

Publicado em 1934, São Bernardo integra o Romance de 30, fase do Modernismo brasileiro marcada pela crítica social e pela densidade psicológica. Narrado em primeira pessoa, com linguagem econômica e direta, o romance se passa no interior nordestino e tem como eixo as relações de poder no mundo rural.

Com pouco mais de 200 páginas (variando conforme a edição), a obra consolidou Graciliano Ramos como um dos maiores prosadores da literatura brasileira e segue sendo leitura obrigatória em escolas, vestibulares e universidades.

Mais do que um clássico, São Bernardo é um livro que resiste ao tempo porque continua a incomodar — e a dizer muito sobre o Brasil e sobre a condição humana.

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