Pular para o conteúdo
Início » Ferreira Gullar: vida e obra

Ferreira Gullar: vida e obra

Anúncio

A literatura brasileira não seria a mesma sem a voz inquieta e visceral de Ferreira Gullar. Poeta, crítico de arte, cronista e dramaturgo, ele transformou a própria vida em matéria-prima para uma obra que atravessa o tempo.

Mais que um escritor, foi um cronista da experiência humana, alguém que soube falar de amor, exílio, política e memória em versos que permanecem vivos e relevantes.

Neste artigo, vamos revisitar sua trajetória, suas principais obras e compreender por que ele é considerado um dos grandes nomes da poesia contemporânea no Brasil.

Anúncio

Origens e formação do poeta

Nascido em 10 de setembro de 1930, em São Luís do Maranhão, José Ribamar Ferreira adotou o pseudônimo “Ferreira Gullar” ao unir o sobrenome do pai (Ferreira) a uma adaptação criativa do sobrenome da mãe (Goulart).

“Posso fazer dez poemas por dia, porque eu sei fazer. Mas nunca farei isso.
Eu sempre fui assim, sempre escrevi o poema necessário.”

Desde cedo, mostrou inquietação artística, publicando seu primeiro livro, Um Pouco Acima do Chão, em 1949.

Anúncio

O Concretismo e a Revolução Neoconcreta

Nos anos 1950, Gullar mergulhou no movimento concretista, que via a poesia como construção quase matemática. Mas logo percebeu que faltava emoção e subjetividade.

Ao lado de artistas como Lygia Clark e Hélio Oiticica, ajudou a fundar o neoconcretismo em 1959, com o célebre Manifesto Neoconcreto. A proposta era simples e ousada: a arte não deveria ser apenas forma, mas experiência sensorial e humana.

O poeta Ferreira Gullar.

Ditadura, exílio e o nascimento de Poema Sujo

A década de 1960 trouxe a repressão da ditadura militar, e Gullar, perseguido, precisou deixar o Brasil. Viveu no Chile, na União Soviética e na Argentina.

Anúncio

O açúcar

O branco açúcar que adoçará meu café
nesta manhã de Ipanema
não foi produzido por mim
nem surgiu dentro do açucareiro por milagre.
 
Vejo-o puro
e afável ao paladar
como beijo de moça, água
na pele, flor
que se dissolve na boca. Mas este açúcar
não foi feito por mim.
 
Este açúcar veio
da mercearia da esquina e tampouco o fez o Oliveira,
dono da mercearia.
Este açúcar veio
de uma usina de açúcar em Pernambuco
ou no Estado do Rio
e tampouco o fez o dono da usina.
 
Este açúcar era cana
e veio dos canaviais extensos
que não nascem por acaso
no regaço do vale.
 
Em lugares distantes, onde não há hospital
nem escola,
homens que não sabem ler e morrem
aos 27 anos
plantaram e colheram a cana
que viraria açúcar.
 
Em usinas escuras,
homens de vida amarga
e dura
produziram este açúcar
branco e puro
com que adoço meu café esta manhã em Ipanema.

(Ferreira Gullar. Dentro da noite veloz.)

Foi em Buenos Aires, em 1975, que escreveu sua obra mais célebre: o Poema Sujo. Com mais de dois mil versos, o texto mistura lembranças da infância em São Luís, reflexões existenciais e uma dor profunda pelo exílio.

Poema sujo

(…)

                                       bela bela
                                       mais que bela
                                       mas como era o nome dela?
                                       Não era Helena nem Vera
                                       nem Nara nem Gabriela
                                       nem Tereza nem Maria
                                       Seu nome seu nome era…
                                       Perdeu-se na carne fria
perdeu-se na confusão de tanta noite e tanto dia
perdeu-se na profusão das coisas acontecidas
                                       constelações de alfabeto
                                       noites escritas a giz
                                       pastilhas de aniversário
                                       domingos de futebol
                                       enterros corsos comícios
                                       roleta bilhar baralho
mudou de cara e cabelos mudou de olhos e risos mudou de casa
e de tempo: mas está comigo está
                                       perdido comigo
                                       teu nome
                                       em alguma gaveta
 
Que importa um nome a esta hora do anoitecer em São Luís do Maranhão à
mesa do jantar sob uma luz de febre entre irmãos e pais dentro de um
enigma?
                                                                mas que importa um nome
 
debaixo deste teto de telhas encardidas vigas à mostra entre cadeiras e mesa
entre uma cristaleira e um armário diante de garfos e facas e pratos de
louças que se quebraram já
                                       um prato de louça ordinária não dura tanto
                                       e as facas se perdem e os garfos
                                       se perdem pela vida caem
                                       pelas falhas do assoalho e vão conviver com ratos
e baratas ou enferrujam no quintal esquecidos entre os pés de
                                                                                 erva-cidreira

(…)

(Ferreira Gullar. Poema sujo.)

O poema foi lido em fitas enviadas ao Brasil e se tornou um símbolo de resistência cultural e política.

O retorno ao Brasil e o engajamento público

De volta ao país em 1977, Ferreira Gullar retomou sua vida literária e jornalística, escrevendo crônicas e ensaios, além de continuar a publicar poesia.

Voltas para casa

Depois de um dia inteiro de trabalho
voltas para casa, cansado.
Já é noite em teu bairro e as mocinhas
de calças compridas desceram para a porta
após o jantar.
Os namorados vão ao cinema.
As empregadas surgem das entradas de serviço.
Caminhas na calçada escura.
 
Consumiste o dia numa sala fechada,
lidando com papéis e números.
Telefonaste, escreveste,
irritações e simpatias surgiram e desapareceram
no fluir dessas horas. E caminhas,
agora, vazio,
como se nada acontecera.
 
De fato, nada te acontece, exceto
talvez o estranho que te pisa o pé no elevador
e se desculpa.
              Desde quando
tua vida parou? Falas dos desastres,
dos crimes, dos adultérios,
mas são leitura de jornal. Fremes
ao pensar em certo filme que vista: a vida,
a vida é bela!
 
A vida é bela
mas não a tua. Não a de Pedro,
de Antônio, de Jorge, de Júlio,
de Lúcia, de Miriam, de Luísa…
 
                       Às vezes pensas
                       com nostalgia
                       nos anos de guerra,
                       o horizonte de pólvora,
                       o cabrito. Mas a guerra
                       agora é outra. Caminhas.
 
Tua casa está ali. A janela
acesa no terceiro andar. As crianças
ainda não dormiram.
Terá o mundo de ser para elas
este logro? Não será
teu dever mudá-lo?
 
Apertas o botão da cigarra.
Amanhã ainda não será outro dia.

(Ferreira Gullar. Dentro da noite veloz.)

Sua linguagem direta, reflexiva e crítica o tornou presença constante em jornais, especialmente na Folha de S. Paulo. Em 2014, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira 37.

“Quando o poema  chega, é um   acontecimento inusitado, uma erupção, como um vulcão.
Está tudo bem e de repente ele começa a colocar fogo pela boca.”

Reconhecimento e prêmios

Ao longo da carreira, recebeu prêmios de grande prestígio, como o Jabuti, o Prêmio Camões, em 2010, prêmio mais importante da língua portuguesa, e títulos de doutor honoris causa. Sua obra também foi traduzida para diversos idiomas, consolidando sua relevância internacional.

Principais obras

  • Poesia: A Luta Corporal (1954), Dentro da Noite Veloz (1975), Poema Sujo (1976), Muitas Vozes (1999), Em Alguma Parte Alguma (2010).
  • Ensaios: Teoria do Não-Objeto (1959), Cultura posta em questão (1965).
  • Memórias e crônicas: Rabo de Foguete – Os anos de exílio (1998), Resmungos (2007).
  • Teatro: Um Rubi no Umbigo (1979).

“Quando surge uma idéia, vou para a rua. Tenho prazer em conceber o poema no meio
das pessoas que passam e nem suspeitam que ali, naquela hora ele está nascendo”

Estilo e impacto cultural

A poesia de Ferreira Gullar é marcada pela fusão entre experiência individual e contexto coletivo.

Se nos primeiros livros ele explora a forma, em sua fase madura trabalha a força da memória, o peso da política e a intensidade das emoções humanas. Não por acaso, continua a ser lido tanto nas escolas quanto nos círculos literários mais exigentes.

No corpo

De que vale tentar reconstruir com palavras
o que o verão levou
entre nuvens e risos
junto com o jornal velho pelos ares?
 
O sonho na boca, o incêndio na cama,
o apelo na noite
agora são apenas esta
contração (este clarão)
de maxilar dentro do rosto.
 
A poesia é o presente.

(Ferreira Gullar. Dentro da noite veloz.)

O poeta Ferreira Gullar.

Conclusão

Ferreira Gullar morreu em 4 de dezembro de 2016, no Rio de Janeiro, mas deixou uma obra que continua a falar intensamente com os leitores. Seus versos não são apenas literatura: são testemunhos de uma vida inteira entregue à palavra.

Ler Gullar hoje é reencontrar a história recente do Brasil, suas feridas e suas esperanças, em poemas que falam de exílio, amor, dor e resistência.

Por isso, mergulhar em sua obra não é apenas um exercício literário, mas também um gesto de memória e humanidade. Afinal, como ele mesmo escreveu em Poema Sujo: “a vida só é possível reinventada”.

“A poesia não fala de tudo. Existe uma parte da vida sobre a qual a poesia não fala,
mas eu também sou essas outras coisas.”

Samira Mór é formada em Letras pela UFJF e Mestra em Literatura pela mesma instituição. É também professora das redes pública e privada há mais de trinta anos. Apaixonada por palavras e livros desde sempre, seu objetivo é partilhar com as pessoas o amor pela leitura e pelos livros.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *