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Anarquistas, graças a Deus, romance de Zélia Gattai: resenha

Anarquistas, graças a Deus é um romance autobiográfico publicado por Zélia Gattai em 1979. Zélia era esposa do famoso escritor baiano Jorge Amado. E foi ele quem aconselhou-a a escrever a história de sua família.

A autora era descendente de imigrantes italianos que vieram para o Brasil ainda na última década do século XIX. A família Gattai, depois de alguns percalços, instalou-se na promissora São Paulo do início do século XX.

As memórias de Zélia trazem o cotidiano de sua família permeado por acontecimentos da história do Brasil desse período.

Zélia Gattai, autora do livro Anarquistas, graças a Deus

Anarquista, graças a Deus: romance autobiográfico

A autobiografia é um gênero textual de caráter documental. Ou seja, é um relato que traz registros de uma época histórica, ao partir da narração de fatos verídicos vividos pelo autor do texto.

Esse gênero textual se inscreve como texto literário principalmente pelo modo como os fatos são narrados. A escolha do vocabulário, a emoção presente nas memórias elencadas, o olhar do presente que mira o passado são justificativas para dar à autobiografia status de literatura.

É assim com esse livro de Zélia Gattai. Escrito muitos anos depois dos fatos acontecidos, Anarquistas, graças a Deus preserva o frescor do modo como a menina Zélia vivenciou os acontecimentos.

Há em seus relatos uma ingenuidade e uma delicadeza que revelam o olhar infantil. O relato permite ao leitor ser transportado por esse olhar para o início do século XX. Vivenciamos o dia a dia da autora e sua família e também a vida na crescente São Paulo desse período.

A família Gattai

Os Gattai são descendentes de italianos e moradores da cidade de São Paulo. Formam uma família grande, amorosa, e com situação financeira remediada.

Ernesto Gattai

O pai, Ernesto Gattai, é um homem sonhador, apaixonado por automóveis e pelo anarquismo.

Ele constrói uma oficina mecânica na garagem da casa em que moram. É bom no que faz e, por isso, arrebanha muitos clientes, alguns muito importantes.

Tem grande cuidado com Zélia e se diverte com o espírito livre e a esperteza da filha caçula.

Angelina Gattai

A mãe, Angelina, é uma mulher forte e prática que, contudo, sabe conviver com os sonhos do marido a quem chama de “atrevido”.

Gosta de ler e de estar bem informada. Adora animais e plantas e está sempre pronta para ajudar a quem precisa.

Tem dificuldades para entender as atitudes de Zélia e repreende a menina com frequência.

Os irmãos Gattai

Zélia tem quatro irmãos. Remo é o mais velho. Moço bonito e namorador, não para em casa.Depois vem Wanda. Moça aplicada, inteligente e organizada, sua beleza chama a atenção dos rapazes.

Vera é a filha do meio. Está sempre ao lado de Wanda e ajuda nas tarefas domésticas. É a primeira a chegar à casa com as novidades da rua. Tito está sempre atento a tudo e é inteligente e esperto.

Maria Negra

Maria Negra trabalha na casa, a princípio, como babá de Zélia, a única filha a ter essa regalia.

É uma moça esperta, organizada e também bastante atrevida. Fala o que pensa sem medo da patroa e até mesmo de seu Ernesto.

É amorosa, cuida dos afazeres da casa e trata Zélia com carinho e afeição.

Os capítulos de Anarquistas, graças a Deus

Os capítulos do livro são determinados por títulos. Funcionam como fragmentos de memória que se unem de forma linear para contar os primeiros anos de vida da autora na Alameda Santos, rua do centro de São Paulo.

Zélia relata muitos acontecimentos interessantes. Alguns chamam a atenção por serem registros de costumes da época e outros por fazerem referência a fatos históricos do período.

Além daqueles que tratam da relação da família com as inovações trazidas pelo novo século.

Costumes

Zélia diz que, quando era menina, o tempo passava devagar e que havia tempo para fazer todas as coisas com bastante calma. E que, muitas vezes, não havia nada para fazer.

Curiosamente, uma das diversões das mulheres e crianças da rua onde morava eram os enterros. Todos acompanhavam os necrológios nos jornais para saber se passaria algum cortejo pela rua. E, quando havia, faziam apostas relacionadas às condições financeiras do morto.

Os enterros de crianças chamavam a atenção de Zélia e de suas irmãs. Acompanhar esses cortejos era garantia de muitos doces. Nessa época, ainda antes das campanhas de vacinação, a mortalidade infantil era alta e era comum a morte de crianças pequenas.

Os pais, com a intenção de garantir muitas crianças no enterro do filho pequeno, davam doces para a meninada presente. Isso alegrou muito a autora quando pôde, pela primeira vez, acompanhar um cortejo infantil.

Outro costume que chama a atenção em seu relato é a educação das moças. Poucas meninas frequentavam a escola. As famílias da época julgavam que as mulheres não precisavam da educação escolar e que deveriam se preparar apenas para serem boas donas de casa.

Na casa de Zélia, no entanto, todas as filhas dos Gattai iam à escola e sabiam ler e escrever. Ainda que só estudassem até a quarta série primária (o equivalente ao quinto ano escolar hoje).

Outros costumes da época que alegravam a vida da família e diminuíam a monotonia eram a ida ao circo, as viagens de bonde, as propagandas nas revistas e nos cartazes exibidos nas ruas, os romances em fascículos lidos em casa de dona Angelina para as mulheres da vizinhança.

Fatos históricos

O principal fato histórico é o que envolve a história da própria família Gattai: a imigração italiana.

Os imigrantes vinham da Itália em busca de melhores condições de vida. Eram contratados ainda em seu país de origem com promessas de uma vida promissora no Brasil.

Mas, mesmo antes de chegar aqui, já descobriam que não era essa a realidade. Os navios que os transportavam eram insalubres e as crianças eram as que mais sofriam, principalmente as menores. Algumas chegavam a morrer de fome.

No Brasil, eram levados do porto de Santos para fazendas no interior de São Paulo e do Paraná, principalmente. Lá enfrentavam condições de trabalho análogas à da escravidão.

Assim, não foi fácil para a família Gattai. A irmã mais nova de seu Ernesto foi uma das crianças que morreu de fome devido às condições da viagem.

No Brasil, foram em busca da Colônia Santa Cecília, uma fazenda só de imigrantes italianos, uma comunidade em que todos se ajudavam. Mas o projeto faliu e os Gattai foram se instalar na cidade de São Paulo.

Outros acontecimentos históricos citados por Zélia são a revolução tenentista de 1924 e o Estado Novo de Getúlio Vargas.

Inovações do século XX

A família Gattai no automóvel de seu Ernesto

Duas inovações são muito presentes na vida da família Gattai: o cinema e o automóvel.

O cinema era a diversão da família. Era ainda o cinema mudo e Zélia lista uma série de filmes, de diversos gêneros, que ela costumava assistir com a mãe e as irmãs.

O automóvel era a paixão de seu Ernesto que chega até a participar de competições automobilísticas. Algumas, inclusive, em péssimas condições. Em uma dessas competições, seu Ernesto sofre um grave acidente.

Dona Angelina costumava chamar o marido de “atrevido” por estar sempre se aventurando em negócios e em disputas com os carros. O reide São Paulo-Santos, viagem que seu Ernesto faz com alguns amigos em um Motobloc, um carro da época, por uma estrada íngreme, é uma das aventuras do atrevido.

Os sonhos de Zélia

Interpretar sonhos também era um costume da época. Dona Angelina gostava de ouvir sobre os sonhos que os filhos tinham, inclusive para tentar descobrir algum palpite para o jogo do bicho.

Uma vez Zélia ganhou um bom dinheiro no jogo, seguindo um palpite de um sonho que teve. Isso fez com que as pessoas a vissem como boa anunciadora de presságios vindos dos sonhos.

Mas os sonhos que deixavam a menina encabulada eram os que tinha com enterros. Sempre sonhava com enterros em que conversava com a pessoa morta e ela acabava acordando.

Ela não entendia por que sempre tinha esses sonhos até sua amiga Zina morrer. Zina tinha a sua idade e elas costumavam brincar juntas. Certo dia, a menina passou mal e logo faleceu.

Zélia ficou muito triste com a perda da amiga. A mãe, preocupada com o estado da filha, não deixou que ela fosse ao enterro.

Tempos depois, descobriram que Zina tinha sido enterrada viva. A menina tinha tido uma catalepsia e, de fato, parecia estar morta. A autora diz que, se a tivessem deixado ir ao enterro, talvez Zina pudesse ter sido salva.

Os animais da família Gattai

Dona Angelina gostava muito de animais e tinha muitos em casa. Cachorros, gato e até um cabrito. Dois desses animais se destacam na memória de Zélia: o cachorro Flox e Bito, o cabrito.

Flox

Flox era um cachorro grande e amoroso. Costumava seguir a família por toda parte, inclusive quando dona Angelina e as meninas saíam. Nessas horas, mandavam que o cão ficasse em casa, mas Flox não obedecia. Em uma de suas fugas para a rua, foi surpreendido pela carrocinha de cachorros. Ao correr para não ser preso, acabou sendo atropelado.

Bito

Bito chegouà casa dos Gattai ainda bem pequeno. A intenção de seu Ernesto era que o animal se tornasse o assado da Páscoa. Dona Angelina não permitiu de forma alguma e Bito acabou ficando com os Gattai. O cabrito cresceu e vivia aprontando, sendo sempre protegido pela dona da casa.

Até que atacou Míster, um cliente de seu Ernesto. Míster, como era chamado pelas meninas, era estrangeiro e encantou-se por Wanda. Um dia, parou diante da janela da casa para admirar a beleza da moça sem perceber a presença do cabrito. Este rapidamente tratou de atacar o homem, jogando-o no chão cheio de graxa.

Graças a essa façanha, o irmão de dona Angelina levou Bito para a sua chácara e nunca mais voltou à casa dos Gattai.

A Alameda Santos e as memórias de Zélia

Muitas outras histórias vividas na casa da Alameda Santos e nas ruas da São Paulo de meados do século XX são narradas por Zélia em Anarquistas, graças a Deus.

São histórias cheias de vida e de afeto sobre uma família de brasileiros de ascendência italiana. Pessoas alegres, sonhadoras e corajosas.

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